quarta-feira, 28 de abril de 2010

José Afonso na rádio

Chamaram-me Cigano

Letra e música: José Afonso
Intérprete: José Afonso* (in "Cantares do Andarilho", Orfeu, 1968; reed. Movieplay, 1987, 1996)

Chamaram-me um dia
Cigano e maltês
Menino, não és boa rês
Abri uma cova
Na terra mais funda
Fiz dela a minha sepultura

Entrei numa gruta
Matei um tritão
Mas tive o Diabo na mão
Mas tive o Diabo na mão

Havia um comboio
Já pronto a largar
E vi o Diabo a tentar
Pedi-lhe um cruzado
Fiquei logo ali
Num leito de penas dormi

Puseram-me a ferros
Soltaram o cão
Mas tive o Diabo na mão
Mas tive o Diabo na mão

Voltei de charola
De cilha e arnês
Amigo, vem cá outra vez
Subi uma escada
Ganhei dinheirama
Senhor D. Fulano Marquês

Perdi na roleta
Ganhei ao gamão
Mas tive o Diabo na mão
Mas tive o Diabo na mão

Ao dar uma volta
Caí do lancil
E veio o Diabo a ganir
Nadavam piranhas
Na lagoa escura
Tamanhas que nunca tal vi

Limpei a viseira
Peguei no arpão
Mas tive o Diabo na mão
Mas tive o Diabo na mão

* Viola – Rui Pato
Gravado nos Estúdios Polysom, Lisboa, em 1968
Técnico de som – Moreno Pinto

Texto sobre o disco em: Grandes discos da música portuguesa: efemérides em 2008
[entrevista de José Afonso, concedida a Maria Emília Correia, em 1983]

Maio, Maduro Maio

Letra e música: José Afonso
Intérprete: José Afonso (in "Cantigas do Maio", Orfeu, 1971; reed. Movieplay, 1987, 1996)

Maio, maduro Maio,
Quem te pintou?
Quem te quebrou o encanto
Nunca te amou;
Raiava o sol já no Sul;
E uma falua vinha
Lá de Istambul.

Sempre depois da sesta
Chamando as flores;
Era o dia da festa,
Maio de amores;
Era o dia de cantar;
E uma falua andava
Ao longe a varar.

Maio com meu amigo
Quem dera já;
Sempre no mês do trigo
Se cantará;
Qu’importa a fúria do mar;
Que a voz não te esmoreça,
Vamos lutar.

Numa rua comprida
El-Rei pastor
Vende o soro da vida
Que mata a dor;
Anda ver, Maio nasceu;
Que a voz não te esmoreça,
A turba rompeu.
Que a voz não te esmoreça,
A turba rompeu.

* [Créditos gerais do disco:]
Carlos Correia (Bóris) – viola, coros e passos
Michel Delaporte – darbuka, bongo berbere, tumbas, tamborim brasileiro e adufe
Christian Padovan – baixo eléctrico
Tony Branis – trompete
Jacques Granier – flauta
Francisco Fanhais – coros, passos, apitos de fole e guimbarda (tipo de berimbau)
José Mário Branco – coros, passos, acordeão, órgão Hammond, piano Ferder
Arranjos e direcção musical – José Mário Branco
Técnicos de som – Gilles Sallé e Christian Gence
Gravado no Strawberry Studio, de Michel Magne, em Herouville (perto de Paris), de 11 de Outubro a 4 de Novembro de 1971

Era de Noite e Levaram

Letra: Luís de Andrade Pignatelli
Música: José Afonso
Intérprete: José Afonso* (in "Contos Velhos, Rumos Novos", Orfeu, 1969; reed. Movieplay, 1987, 1996)

Era de noite e levaram
Era de noite e levaram
Quem nesta cama dormia
Nela dormia, nela dormia

Sua boca amordaçaram
Sua boca amordaçaram
Com panos de seda fria
De seda fria, de seda fria

Era de noite e roubaram
Era de noite e roubaram
O que nesta casa havia
Na casa havia, na casa havia

Só corpos negros ficaram
Só corpos negros ficaram
Dentro da casa vazia
Casa vazia, casa vazia

Rosa branca, rosa fria
Rosa branca, rosa fria
Na boca da madrugada
Da madrugada, da madrugada

Hei-de plantar-te um dia
Hei-de plantar-te um dia
Sobre o meu peito queimada
Na madrugada, na madrugada

* Rui Pato – viola, marimbas, harmónica

Luís Filipe Sousa Colaço – 2.ª viola

Canção do Desterro (Emigrantes)
Letra e música: José Afonso
Intérprete: José Afonso* (in "Traz Outro Amigo Também", Orfeu, 1970; reed. Movieplay, 1987, 1996)

Vieram cedo
Mortos de cansaço
Adeus amigos
Não voltamos cá
E o mar é tão grande
E o mundo é tão largo
Maria Bonita
Onde vamos morar?

Na barcarola
Canta a marujada
– O mar que eu vi
Não é como o de lá
E a roda do leme
E a proa molhada
Maria Bonita
Onde vamos parar?

Nem uma nuvem
Sobre a maré cheia
O Sete-Estrelo
Sabe bem onde ir
E a velha teimava
E a velha dizia
Maria Bonita
Onde vamos cair?

À beira de água
Me criei um dia
– Remos e velas
Lá deixei a arder
Ao sol e ao vento
Na areia da praia
Maria Bonita
Onde vamos viver?

Ganho a camisa
Tenho uma fortuna
Em terra alheia
Sei onde ficar
Eu sou como o vento
Que foi e não veio
Maria Bonita
Onde vamos morar?

Sino de bronze
Lá na minha aldeia
Toca por mim
Que estou para abalar
E a fala da velha
Da velha matreira
Maria Bonita
Onde vamos penar?

Vinham de longe
Todos o sabiam
Não se importavam
Quem os vinha ver
E a velha teimava
E a velha dizia
Maria Bonita
Onde vamos morrer?

Nota: «"Canção do Desterro (Emigrantes)" – Sugerida em Lourenço Marques, pela leitura de um artigo da "Seara Nova" sobre as causas da emigração portuguesa. Tenta-se evocar a odisseia dos forçados actuais, partindo em modernas naus catrinetas, como os Mendes Pintos de outras épocas, a caminho dum destino que na História se repete como um dobre de finados.» (in "Cantares", de José Afonso, Nova Realidade, Tomar, 1966; Fora do Texto, 4.ª ed., Coimbra, 1995)

* Viola – Carlos Correia (Bóris)
2.ª viola – Luís Filipe Sousa Colaço
Gravado nos Estúdios Pye Records, Londres, em 1970

Ó Ti Alves

Letra e música: José Afonso
Intérprete: José Afonso* (in "Eu Vou Ser Como a Toupeira", Orfeu, 1972; reed. Movieplay, 1987, 1996)

Ó Ti Alves
São poucas ou muntas?
São poucas, mê menino,
Mas prò ano
Já são mai muntas

Ó Ti Alves
São magras ou gordas?
São magras, mê menino,
Mas prò ano
Já são mai gordas

Ó Ti Alves
São pobres ou ricas?
São pobres, mê menino,
Mas prò ano
Já são mai ricas

* Músicos:

Benedicto, Carlos Alberto Moniz, Carlos Medrano, Carlos Villa, Ernesto Duarte, José Afonso, José Dominguez, José Jorge Letria, José Niza, Maite, Maria do Amparo, Pedro Vicedo, Pepe Ébano e Teresa Silva Carvalho
Produção – José Niza
Gravado nos Estúdios Celada, Madrid, de 6 a 13 de Novembro de 1972
Captação de som – Paco Molina, António Olariaga, Pepe Fernandez, Juan Carlos Ramirez e Juan António Molina
Mistura – Paco Molina

Texto sobre o disco em: Grandes discos da música portuguesa: efemérides em 2007

Saudadinha

Letra e música: Popular (Açores)
Intérprete: José Afonso* (in "Cantares do Andarilho", Orfeu, 1968; reed. Movieplay, 1987, 1996)

Ó Tirana saudade
Ó Tirana saudade
Ó Tirana saudade
Saudade, ó minha saudadinha

Foste nada no Faial
Foste nada no Faial
Foste nada no Faial
No Faial, baptizada na Achadinha

Saudade, onde tu fores
Saudade, onde tu fores
Saudade, onde tu fores
Saudade, leva-me, podendo ser

Que eu quero ir acabar
Que eu quero ir acabar
Que eu quero ir acabar
Saudade, onde tu foras morrer

A saudade é um luto
A saudade é um luto
A saudade é um luto
Um amor, um amor, uma paixão

É um cortinado roxo
É um cortinado roxo
É um cortinado roxo
Que me morde, que me morde o coração

* Viola – Rui Pato
Gravado nos Estúdios Polysom, Lisboa, em 1968
Técnico de som – Moreno Pinto

Texto sobre o disco em: Grandes discos da música portuguesa: efemérides em 2008

Cantares do Andarilho

Letra: António Quadros (João Pedro Grabato Dias)
Música: José Afonso
Intérprete: José Afonso* (in "Cantares do Andarilho", Orfeu, 1968; reed. Movieplay, 1987, 1996)

Já fiz recados às bruxas
Do Caselho à Portelada
Dei-lhes a minha inocência
Elas não me deram nada.

Andei à giesta
Ao lírio maninho
Na Bouça da Fresta
No Casal Velido

Erva-cidreira
À erva veludo
Na Lomba Regueira
No Pinhal do Mudo.

Andei ao licranço
Andei ao lacrau
No Monte do Manso
Na Espera do Mau

Vibra à carocha
Ao corujão cego
Na mata da Tocha
No rio Lágedo.

Fui andarilho das bruxas
Moço de S. Cipriano
Já fui morto e inda vivo
Vendi a alma ao Dialho.

Andei à giesta
Ao lírio maninho
Na Bouça da Fresta
No Casal Velido

Erva-cidreira
À erva veludo
Na Lomba Regueira
No Pinhal do Mudo.

Andei ao licranço
Andei ao lacrau
No Monte do Manso
Na Espera do Mau

Vibra à carocha
Ao corujão cego
Na mata da Tocha
No rio Lágedo.

Era donzel e guardei-me
P'rás filhas da feiticeira
Parti-me em meio à loira
Noutra metade à morena.

Andei à giesta
Ao lírio maninho
Na Bouça da Fresta
No Casal Velido

Erva-cidreira
À erva veludo
Na Lomba Regueira
No Pinhal do Mudo.

Andei ao licranço
Andei ao lacrau
No Monte do Manso
Na Espera do Mau

Vibra à carocha
Ao corujão cego
Na mata da Tocha
No rio Lágedo.

* Viola – Rui Pato
Gravado nos Estúdios Polysom, Lisboa, em 1968
Técnico de som – Moreno Pinto

Texto sobre o disco em: Grandes discos da música portuguesa: efemérides em 2008

Inquietação

Letra: Edmundo de Bettencourt
Música: Alexandre Resende
Intérprete: José Afonso* (in "Fados de Coimbra e Outras Canções", Orfeu, 1981; reed. Movieplay, 1987, 1996)

És linda, se foras feia
Mesmo assim eu te queria;
Não é por ser lua cheia
Que a lua mais alumia.

Todo o bem que não se alcança
Vive em nós morto de dor;
Quem ama de amor não cansa
E se morrer é de amor.

* Octávio Sérgio – guitarra portuguesa
Durval Moreirinhas – viola

Gravado nos Estúdios Rádio Triunfo, Lisboa
Técnicos de som – Jorge Barata e Moreno Pinto

Ronda das Mafarricas

Letra: António Quadros (João Pedro Grabato Dias)
Música: José Afonso
Intérprete: José Afonso* (in "Cantigas do Maio", Orfeu, 1971, reed. Movieplay, 1987, 1996)

Estavam todas juntas
Quatrocentas bruxas
À espera, à espera
À espera da lua cheia

Estavam todas juntas
Veio um chibo velho
Dançar no adro
Alguém morreu

Arlindo coveiro
Com a tua marreca
Leva-me primeiro
Para a cova aberta
[bis]

Arlindo, Arlindo
Bailador das fadas
Vai ao pé-coxinho
Cava-me morada

Arlindo coveiro
Cava-me morada
Fecha-me o jazigo
Quero campa rasa

Arlindo, Arlindo
Bailador das fadas
Vai ao pé-coxinho
Cava-me morada

* [Créditos gerais do disco:]

Carlos Correia (Bóris) – viola, coros e passos
Michel Delaporte – darbuka, bongo berbere, tumbas, tamborim brasileiro e adufe
Christian Padovan – baixo eléctrico
Tony Branis – trompete
Jacques Granier – flauta
Francisco Fanhais – coros, passos, apitos de fole e guimbarda (tipo de berimbau)
José Mário Branco – coros, passos, acordeão, órgão Hammond, piano Ferder
Arranjos e direcção musical – José Mário Branco
Técnicos de som – Gilles Sallé e Christian Gence
Gravado no Strawberry Studio, de Michel Magne, em Herouville (perto de Paris), de 11 de Outubro a 4 de Novembro de 1971

Carta a Miguel Djéjé

Letra e música: José Afonso
Intérprete: José Afonso* (in "Traz Outro Amigo Também", Orfeu, 1970; reed. Movieplay, 1987, 1996)

Diga amigo Miguel
Como está você?
Em todo o Xipamanine
Já ninguém o vê

Vou dar-lhe a minha viola
Para tocar outra vez

O seu valor um dia
Você mostrou
Todo o mainato o ouvia
E até dançou

Miguel só você sabia
Tocar como já tocou
Vinha maningue gente
Para aprender

Moda lá da sua terra
Bonita a valer
O Jaime e o Etekinse
Amigos não volt'haver

Quando à noite se ouvia
Miguel tocar
Também havia a marimba
Para acompanhar

A noite
Na Ponta Geia
Amigos hei-de recordar

O barco foi andando
E a Nanga vi
Foi a saudade aumentando
Longe daí

A gente
Na minha terra
Não canta assim
Como eu ouvi

* Viola – Carlos Correia (Bóris)
2.ª viola – Luís Filipe Sousa Colaço
Gravado nos Estúdios Pye Records, Londres, em 1970

Os Eunucos (No Reino da Etiópia)

Letra e música: José Afonso
Intérprete: José Afonso* (in "Traz Outro Amigo Também", Orfeu, 1970; reed. Movieplay, 1987, 1996)

Os eunucos devoram-se a si mesmos
Não mudam de uniforme, são venais
E quando os mais são feitos em torresmos
Defendem os tiranos contra os pais [3x]

Em tudo são verdugos mais ou menos
No jardim dos harens os principais
E quando os pais são feitos em torresmos
Não matam os tiranos, pedem mais [3x]

Suportam toda a dor na calmaria
Da olímpica visão dos samurais
Havia um dono a mais na satrapia
Mas foi lançado à cova dos chacais [3x]

Em vénias malabares à luz do dia
Lambuzam de saliva os maiorais
E quando os mais são feitos em fatias
Não matam os tiranos, pedem mais [5x]

* Viola – Carlos Correia (Bóris)
2.ª viola – Luís Filipe Sousa Colaço
Gravado nos Estúdios Pye Records, Londres, em 1970
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Biografia e discografia em: A Nossa Rádio
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Álvaro José Ferreira

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