quinta-feira, 18 de novembro de 2010

PATRIMÓNIO CULTURAL E NATURAL - PATRIMÓNIO IMATERIAL

A CANÇÃO DE COIMBRA NO IMAGINÁRIO ESTUDANTIL DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA


Jorge Cravo

INTRODUÇÃO

A Universidade de Coimbra, fundada no século XIII, é das poucas instituições universitárias europeias oriundas dos tempos medievais que viu o seu corpo discente desenvolver o filão académico de uma Canção fortemente influenciada pela música tradicional da cidade. Ao longo dos séculos, fruto de uma sociabilidade urbana própria de uma cidade universitária, a população e os estudantes souberam criar uma individualidade musical regional e local específica: a Canção de Coimbra.
Naquilo que a envolve em termos de vivência humana, "escolas" de execução e interpretação, poesia, valores de solidariedade e de fraternidade, a Canção de Coimbra continua a sustentar na oralidade a sua forma tradicional de transmissão e de aprendizagem. Fruto da troca de sensibilidades musicais entre actuais e antigos estudantes, esta Canção vive de uma constante improvisação em torno do seu imaginário. Deste modo ela é permanentemente recriada pelos seus executantes, que a reconhecem como seu património, fundamentando assim a sua imaterialidade no valor da memória musical identitária de uma comunidade académica.
OBJECTIVOS
Documentar a Canção de Coimbra como bem imaterial incluso no imaginário vivencial do estudante, e assim, testemunho sonoro da vertente intangível da candidatura da Universidade de Coimbra a Património Mundial da UNESCO envolve os seguintes objectivos:
01 _ Elaboração de uma nótula histórica sobre a génese, evolução e imaginário da Canção de Coimbra, tendo em conta o modo como os estudantes vivem e recriam a sua Canção, pois a sua imaterialidade como valor da memória leva a que a pesquisa das suas origens seja um imperativo actual, de maneira a entender-se a sua representação e significado na contemporaneidade que vivemos. Esta memória descritiva deverá ser acompanhada por um álbum iconográfico, ou seja, um álbum com fotografias de capas de discos, partituras, cartazes, programas, recortes de jornais, notícias várias, capas de livros, fotografias de intérpretes e de grupos em serenata, etc., seguido de um inventário discográfico de Canção de Coimbra de 1904 à actualidade, que uma vez editado se transformará num testemunho ilustrado fundamental.
02 _ Edição de um documento sonoro biodiscográfico de estudantes cultores/referência ao longo das épocas, como paradigma identitário de uma cultura-tradição musical regional e local de Coimbra, que servirá de testemunho sonoro indispensável.
03 _ Promoção de um plano de revitalização da Canção de Coimbra que consagre as suas formas tradicionais de divulgação que caíram em desuso ou que se encontram em risco de desaparecimento. Desta forma se estará a reforçar o seu ritual e a produzir uma destradicionalização que recupere de um tempo passado e originário todo um imaginário que será útil à sobrevivência da identidade e reafirmação da Canção Coimbrã.
Nótulas históricas justificativas da inclusão da Canção de Coimbra como bem imaterial na candidatura da Universidade de Coimbra a património da UNESCO
A ligação do Cantar Coimbrão ao Fado é sustentada em publicações referentes à cultura popular de Lisboa e a este último género musical, afirmando-se que o "Fado de Coimbra" nasceu do Fado de Lisboa. Contudo, a Canção de Coimbra já existia muito antes do Fado ter surgido em Portugal. Todavia, a designação de "Fado de Coimbra" foi sendo aceite, não só por comodismo, mas por uma questão de moda, pois o Fado surgiu em Lisboa no primeiro quartel do século XIX, e como novidade difundiu-se por todo o País.
De verdade, "Fado de Coimbra" começou por ser o título de uma canção popular de meados da década de 40/50 do século XIX, que tem muito mais a ver com a toada regional e local da Música Tradicional de Coimbra do que com o Fado. O facto de nessa altura ser designado de Fado de Coimbra" um só tema, não permite referência a um Fado como música autóctone, tradicional e enraizada nas gentes da cidade. É que, em título, igualmente existe o Fado de Aveiro, o Fado da Figueira, ou o Fado de Guimarães, entre outros, e nessas localidades não existe a tradição de um Fado próprio e genuíno. Não quer dizer que não se tenha cantado Fado em Coimbra. Precisamente o Fado de Lisboa. Ou que a Canção de Coimbra em períodos de fraca criatividade não tenha andado muito próxima do Fado de Lisboa. Mas, antes do Fado chegar a Portugal, já em Coimbra existia uma entidade musical muito própria, assente numa forte componente popular e na presença de uma comunidade estudantil que, de origem predominantemente aristocrática e burguesa, era detentora de um interesse musical e de uma exigência estética que nada tinham a ver com a vindoura filosofia de vida dos executantes do Fado de Lisboa.
A CANÇÃO DE COIMBRA COMO FENÓMENO SOCIAL
Se, por um Lado, a Música Tradicional de Coimbra compreende um conjunto de danças e cantares das fogueiras, as cantigas de trabalho, os cânticos de embalar, as canções de amor e as serenatas, que constituem o repertório do seu filão popular, nada tendo a ver com o Fado; por outro lado, no filão académico, no século XVI (trezentos anos antes do surgimento do Fado em Portugal] era hábito os estudantes de Coimbra cantarem e tocarem noite dentro pelas ruas da cidade; e no século XVIII (cerca de cem anos antes do Fado), os estudantes cantavam milles trovas, quitollis e amphiguris.
Através de festividades várias e de um convívio urbano-estudantil profícuo, uma população futrica ligada a profissões como as de barbeiro, alfaiate, sapateiro e encadernador, fazia a síntese de toda a oralidade musical que até ela chegava; e ao relacionar-se com gente ligada às repúblicas e às casas onde habitavam estudantes, (cozinheiras, engomadeiras, lavadeiras, serventes], as ricas canções locais foram sendo difundidas entre todos aqueles que partilhavam tal sociabilidade. Este intercâmbio cultural conduziu à retenção de formas mais eruditas e mais elaboradas de interpretação por parte do filão popular, reforçando-se um distanciamento salutar da Canção de Coimbra em relação ao Fado de Lisboa. Veja-se que ao nível da vocalização, esta Canção - sob o ponto de vista da projecção de voz, da dicção, do "dizer" os versos - tem alguma influência operática (reminiscências da modinha italiana, da qual o filão académico foi fortemente influenciado), mas sofrendo tal diluição em contacto com o cantar popular, releva-se o cunho regional e local da tradição musical coimbrã, e o estilo operático acaba despercebido. Ora, estas reminiscências vocais operáticas não se encontram no Fado de Lisboa. Um Fado que, partindo das camadas mais baixas da população lisboeta, não tinha condições culturais para qualquer ligação à música erudita, clássica e dramática, enquanto a Canção de Coimbra, com a presença dos estudantes ganhou sempre um cariz erudito, mas sem nunca perder as suas raízes populares regionais e locais.
EVOLUÇÃO DA CANÇÃO DE COIMBRA
Fruto da sua oralidade como forma tradicional de transmissão, esta Canção difunde-se através da troca de sensibilidades musicais entre novos e antigos cultores, populares e académicos, num ensaio, numa tertúlia, numa qualquer demonstração despretensiosa do que se sabe e se cria. Mais do que escolas profissionais de Canto e Guitarra ou Conservatórios de Música, a vivência humana do Cantar Coimbrão, naquilo que o envolve em termos de memória histórica, "escolas" de interpretação, poesia, valores de solidariedade e fraternidade, continua a ser uma forma de aprendizagem por excelência desta tradição musical. É que a Canção de Coimbra vive de uma constante improvisação em torno de tudo o que constitui o seu imaginário.
Em suma: o "Fado de Coimbra" não existe. 0 que existe é uma Canção Tradicional, regional e local, com um duplo filão (o popular e o académico)enraizada nesta cidade, que tem a Serenata (expressão musical para concerto tocado e/ou cantado e não apenas ritual de cortejamento), como a sua manifestação artística mais genuína, embora esta Canção esteja aberta a outras formas de divulgação.
CONCLUSÃO
A Canção de Coimbra é um género musical de grande singularidade e especificidade, pois os seus principais intervenientes são estudantes e antigos estudantes da Universidade de Coimbra que, não descurando a sua formação académica em diferentes áreas do conhecimento mas longe de saberem música ou serem músicos profissionais, continuam a interpretá-la numa execução que assenta, essencialmente, na aplicação de fórmulas de digitação da guitarra e de interpretação vocal profundamente enraizadas na transmissão oral. Aspecto que reforça a sua imaterialidade.
Por outro lado, estando a Canção de Coimbra actualmente envolvida numa fase de experimentalismos musicais vários - fruto do hibridismo musical que a própria globalização cultural permite - bem visível na utilização de novos instrumentos na sua forma de acompanhamento, como são exemplo, o saxofone, o violoncelo e o acordeão, assim como o recurso a orquestra e uma tentativa de fusão com outros géneros musicais, nomeadamente o jazz ou o barroco musical, esta Canção sofre hoje um preocupante processo de descaracterização e abandono de práticas identitárias e diferenciadoras em relação a outros géneros musicais. Daí o risco de desaparecimento das suas formas mais tradicionais, adulterando-se a sua vivência humana, o seu imaginário e o seu ritual. E embora não se pretenda transformar a Canção de Coimbra num "artefacto musical museológico" é necessário contrapor a todo um artificialismo que se vai instalando em Coimbra como forma de divulgação da sua Canção, as suas representações mais tradicionais de difusão. Isto porque a sua renovação não deve implicar a adulteração da sua memória identitária rumo a um novo-riquismo musical como forma de mais facilmente ser integrada na cultura turística da cidade para dar resposta a qualquer tipo de consumo global imediato.
No fundo, o processo de globalização cultural aplicado à Canção de Coimbra transmite-lhe uma tal vulnerabilidade que obriga a repensá-la sob o ponto de vista da sua preservação, da sua valorização, da sua revitalização e difusão.

Texto retirado de: http://aa.uc.pt/aaprj/candunesco/patrimonio/patrimonio-imaterial/PDF/PCN_IMAT_cancao_de_coimbra.pdf

2 Comentários:

Blogger Comissão de Moradores do Largo das Calhandreiras disse...

Caros Amigos
Deixamos no Largo das Calhandreiras um prémio paro o "Guitarras de Coimbra"

18 de novembro de 2010 às 18:43  
Blogger Octávio Sérgio disse...

Obrigado Amigos. Continuem sempre em frente na luta.
Um abraço
Para quem não sabe:
http://forumlc.blogspot.com/

18 de novembro de 2010 às 21:24  

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