terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A Barquinha Feiticeira



(Canção)

Música: autor desconhecido, dedicada "À Exma. Sra. D. Mariana Adelina Amaral Mira"
Letra: autor desconhecido
Incipit: A barquinha feiticeira
Origem: desconhecida
Data: ca. 1895-1898
Categoria: composições estróficas

A barquinha feiticeira,
Vai sulcando o mar irado,
Enquanto as águas à praia
Me trazem saudades
Dum ente adorado.
Ai!...
Sinto o meu corpo gelado,
Vejo esse quadro d'horror!...
Mas com valor da barquinha,
Lá vai direitinha,
Das ondas à flor.

Uma formosa mulher,
Do mar altiva é rainha;
Solta ao vento os cabelos
Às vagas revoltas
Lá guia a barquinha.
Ai!...
Sobre esse abismo sozinha,
Vai sua vida arriscar,
Para salvar uma vida
Que luta perdida
Nas ondas do mar.

Deus de bondade e amor,
Ente Divino e sem par,
Faz com que as águas não lancem
A pobre barquinha
Ao fundo do mar.
Ai!...
Quanto é triste o lutar
Com o gigante feroz,
Basta da voz um rugido
Para ser bem temido
Tão pérfido algoz.

A feiticeira barquinha
Já vem à praia chegando;
Deus os meus rogos ouviu.
Lá vejo o meu filho
De joelhos orando.
Ai!...
E eu alegre, chorando
Vou enfim abraçar;
Junto ao altar do Senhor,
Vamos já com fervor
De joelhos orar.
Ai!...

Cantam-se os primeiros 5 versos seguidos, interpreta-se o Ai e vocalizam-se os 5 seguintes pela mesma forma, vincando a parte forte. Repete-se o esquema e acaba-se com um Ai sustentado. Na repetição, o último conjunto é cantado a duas vozes, podendo usar-se coro.

Informação complementar:

Bela canção de finais do século XIX em compasso ¾ e tom de Mi Bemol Maior.
Criada por compositor desconhecido, ligado à sociabilidade Belle Époque que se dava a ver nos divertimentos e passatempos de época estival na Praia da Póvoa de Varzim, Praia da Granja, Praia da Figueira da Foz, Praia do Estoril, Praia de Cascais, Furnas da Ericeira, termas de Pedras Salgadas, termas de Caldas de Vizela, hotéis, salões, casinos e serenatas fluviais que o Mondego tenha.
A letra é bem uma marinha romântico-naturalista a que não faltam condimentos
de piedade cristã e uma propensão narrativa que parece afastar a hipótese de uma origem conimbricense. O enredo parece sugerir uma origem dramática, possivelmente associada ao ensaio e exibição de uma peça de teatro.
Solfa e letra insertas em César das Neves - Cancioneiro de Músicas Populares. Tomo III. Porto: Typographia Occidental, 1898, págs. 94-95 (pdf da Biblioteca Nacional disponível em http://purl.pt/742/1/mpp-21-a-3_item/index.htm). Canção recolhida pelo editor portuense Eduardo da Fonseca em 1898 na estação termal de Pedras Salgadas, Concelho de Chaves. Com variantes de letra, esta música encontra-se popularizada na Póvoa de Varzim (o Grupo Folclórico Poveiro gravou esta canção num Ep Alvorada de 1967), nas ilhas do Pico, Faial e Flores, em Coimbra e na Calheta (Madeira).
O primeiro registo fonográfico de que temos notícia foi realizado entre 1904-1907 por Emília de Oliveira no 76 rpm Odeon 40340, não nos tendo sido possível aceder a eventual exemplar circulado e preservado.
A reconstituição coimbrã foi efectuada pelo Grupo Folclórico de Coimbra, orientado pelo Doutor Nelson Correia Borges e tem constado do programa da
serenata dos futricas e das tricanas desde os inícios da primeira década do século XXI (notícia em Grupo Folclórico de Coimbra/Cantigas/Serenata, http://www.gfc.com/cantigas.htm) .
Recolha da variante açoriana em ANDRADE, Júlio - Bailhos, rodas e cantorias.
Subsídios para o registo do folcore das ilhas do Faial, Pico, Flores e Corvo. Horta: Edição do Autor, 1960, págs. 309-310. Na ilha do Faial, esta serenata foi orquestrada para orfeon, por Constantino Magno do Amaral Júnior, e representada no Teatro Faialense. Admitimos que fosse cantada nas passeatas recreativas que se faziam nas tardes e noites estivais em modo de travessia do Canal, onde também era vezeiro entoar-se o não menos aplaudido Leva Arriba Nossa Gente/Que uma noite não é nada.
Aquando da adaptação do romance de Vitorino Nemésio, "Mau Tempo noCanal", a série televisiva pela RTP-Açores, foi cantada pelo actor amador e tocador de viola da terra, natural de Santa Cruz das Ribeiras (Ilha do Pico) Manuel Costa (foto disponível em http://www.iac-azores.org/biblioteca-virtual/baleeiros-em-terra/filmes/texto-pt-13.html) .
Barquinha Feiticeira faz parte do reportório do Grupo Coral das Lajes do Pico, Açores, com harmonização do regente Emílio Porto.
Variante comum às ilhas do Faial, Pico e Flores, interpretada por Maria Antónia Esteves no LP Mangericão da Serra. Ponta Delgada: DISREGO DRL00.07, ano de 1984, Lado B, faixa n.º 3, com acompanhamento de violão por Moniz Correia. Complementarmente, vide a solfa recolhida por MACHADO, João Homem - O Folclore da Ilha do Pico. Horta: Edição do Núcleo Cultural da Horta, 1991, págs. 64-65. Sentimental e sentido solo de viola da terra por Ricardo Carvalho (23.11.2009), disponível em http://www.youtube.com/watch?v=gGzIvSgZh_´M . Lição da Ilha da Madeira muito cantada por grupos corais da Vila da Calheta com a seguinte letra divulgada pelo escritor José Viale Moutinho numa recriação de contos e lendas populares:

A barquinha feiticeira
Vai sulcando o mar irado
Enquanto as ondas na praia
Nos trazem saudades
De um ente adorado.

Lá vai vagando sozinha
A sua vida arriscar
Para salvar uma vida
Que luta perdida
No meio do mar.

Sacudida pelas ondas
Já prestes a naufragar
E nela o meu bem-amado
Já deve estar cansado
De tanto remar.

Ó Deus de amor e bondade
Morreste para nos salvar
Faz com que esta barquinha
Não fique sozinha
Perdida no mar.

Uma formação coral activa no Paul do Mar, Ilha da Madeira, gravou Barquinha Feiticeira no EP Orfeão Paulense (Paul do Mar), Imavox IM-20048, Lado B, faixa n.º 2.
A lição aqui seguida é a fixada por César das Neves nos finais de oitocentos. Cruza-se a pontuação publicada intra-pentagrama com as estrofes de fundo de página, optando por substituir no 2.º verso da primeira estrofe "cercando" por "sulcando".
Não conhecemos qualquer gravação desta canção em formações conimbricenses, não obstante a excelente recriação do Grupo Folclórico de Coimbra com coro misto e tocata tradicional mondeguina (é facto que, à semelhança de Balada de Coimbra, numa reconstituição desta monta a guitarra pede a rabeca). Aautoria desta obra não foi reivindicada no século XX, nem por autor vivo, nem por herdeiros, não obstante a grande tiragem e circulação que o cancioneiro de César das Neves teve em todo o Portugal. Pelo actual regime do direito de autor, caiu no domínio público em 1968.

Transcrição: Octávio Sérgio (2011)
Pesquisa e texto: José Anjos de Carvalho e António M. Nunes

A seguir, a canção em MIDI

1 Comentários:

Blogger GUITAR-CoelArg disse...

Parabéns pelo teu blog, está muito bom. see musics tabs/chords and play: http://www.amusicadecoelarg.blogspot.com/
Thanks

26 de outubro de 2011 às 00:37  

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