domingo, 2 de maio de 2010


ÀS ESTRELAS
Música: 1.ª parte de autor desconhecido; 2.ª parte de autor desconhecido
Letra: 1.ª e 2.ª quadras de Augusto José Gonçalves Lima (1825-1867); oitavas
e quadra final de João Martins Barbosa Carneiro (1833-1857)
Incipit: Lindas, mimosas safiras
Origem: Coimbra
Função inicial: divertimento, serenata de cortejamento, serenata estudantina
Supercategoria: Canção de Coimbra
Subcategoria: fado corrido
Data: ca. 1847-1852; 1890
Protecção: domínio público
Referência: PT/CO/CC/2PM.02

Lindas, mimosas safiras
Que o véu da noite bordais,
Dizei-me estrelas, dizei-me,
Se acaso também amais?

Tereis somente por norte
Luzir, luzir e não mais?
Não creio, estrelas, não creio,
Sois tão formosas, amais.

Vós estrelas tão formosas
Que a terra de luz banhais,
Dizei-me, oh astros da noite,
Porque tão belos brilhais.

Suspensas lá nesse espaço,
Criadas pelo Senhor;
Vós, estrelas, dais à noite
Melancólico fulgor.

O velho, que vê dispersas
Da infância as saudosas flores,
Ao ver-vos inda se lembra
Do tempo dos seus amores.

A virgem sorri mimosa
À vossa luz que estremece,
E o ateu um Deus eterno
Ao fitar-vos reconhece.

Estrelas, vós sois um livro
Que aos mortais abrem os céus,
Sois a página brilhante
Onde leio amor e Deus.

Os dísticos cantam-se e repetem-se tanto na 1.ª como na 2.ª parte. Os dísticos podem ser cantados apenas por solista e bisados em coro, esquema usual em muita da música tradicional portuguesa. Nada obsta a que a copla correspondente à 2.ª parte seja integralmente cantada em coro.

Informação complementar

Composição com duas partes musicais em compasso binário e tom de Sol Maior (Lá Maior na afinação de Coimbra). A melodia é singela, moldada pelo padrão do fado corrido. O que não é propriamente comum no século XIX é um fado corrido ter duas partes musicais, embora possamos encontrar fados assim estruturados, o que acontece com uma variante do popular Fado da Severa (Tenho vida amargurada) que também se cantava e ponteava ao som da banza conimbricense. No cabeçalho da solfa vem "nocturno", indicando que esta melodia era utilizada nas serenatas dadas pelos estudantes de Coimbra.

Solfa recolhido em Coimbra no ano de 1890 pelo estudante sócio fundador da TAUC Manuel Maria de Castro Corte-Real que não menciona autoria de música nem correlaciona de todo esta composição com o nome de Augusto Hilário que conhecia e admirava. Partitura integrada na compilação orientada por César das Neves - Cancioneiro de Músicas Populares. Volume I. Porto: Typographia Occidental, 1893, pp. 192-193.

Estudiosos houve, como Alberto Pimentel (A triste canção do sul, 1904), que nimbados da leitura dos índices finais do cancioneiro de César das Neves relacionaram Às Estrelas com a Augusto Hilário. Sem provas seguras, não arriscamos sequer um "atribuído a", sendo pacífico apenas que a composição fez parte do repertório hilariano. A primeira parte, anterior ao nascimento do próprio Hilário, é um típico fado corrido em tom maior. O acrescento (2.ª parte) pode ter sido feito pelo famoso guitarrista Jaime de Abreu, que brilhou na década de 1880 como tuno, guitarrista e membro da orquestra do Teatro Académico. Do que não há dúvidas é que este era um dos vários "fadinhos" com que Hilário arrebatou ouvintes masculinos e femininos na primeira metade da década de 1890, ainda antes de ter feito as suas própias composições. Daí que, bem conhecido o reportório hilariano, seja de questionar com bons argumentos a "teoria" que pretendia que o chamado Fado de Coimbra, derivado monegeneticamente do Fado vindo de Lisboa, teria sofrido uma primeira e marcante distanciação estética com Augusto Hilário.
Ora, a análise das fontes epocais demonsta o contrário, que Hilário afadistou a Canção de Coimbra, na nomenclatura, na importação de células fadísticas e até no enxertamento do acompanhamento do Fado Corrido nas monodias conimbricenses.

As primeiras duas coplas fazem parte de uma estrofe de doze versos da autoria de Augusto José Gonçalves Lima, poeta colaborador de O Trovador (1844-1848), bacharel em Direito, mais tarde Governador Civil de Lisboa, Administrador do Bairro do Rossio e funcionário do Ministério do Reino (Odivelas, 1825; Lisboa, 1867). Lima, poeta de convicções liberais, foi o autor da letra do Hino do Batalhão Académico de 1847. Tal facto, catapulta a primeira parte da melodia para finais da década de 1840, inícios de 1850, sendo as coplas primitivas de 1847. Outro importante indicador para a datação é a antologia Murmúrios, Lisboa, 1851, na qual o autor reune a maioria das produções.

O autor das duas oitavas e da quadra final foi João Martins Barbosa Carneiro, poeta, jornalista e escritor nascido e falecido na cidade do Porto (1833-1857). Colaborou em O Bardo e em A Grinalda e deixou o romance A voz do Condenado. O texto poético de Barbosa Carneiro terá sido acrescentado em 1893 à solfa remetida de Coimbra por Gualdino de Campos, literato que formou equipa com César das Neves e coordenou a parte potética do cancioneiro.

A melodia contém o "ADN" de uma composição gravada na década de 1920 por José Paradela de Oliveira e António Batoque com a designação de Fado Antigo (Por ti perdi o sossego).

Esta composição tem feito parte das serenatas anualmente apresentadas pelo Grupo Folclórico de Coimbra que a re-interpreta com tocata completa.

Não se conhece qualquer registo fonográfico de Às Estrelas.

Transcrição: Octávio Sérgio (2010)
Texto e pesquisa: José Anjos de Carvalho e António M. Nunes

Projecto: recolha, salvaguarda e divulgação do Património Canção de Coimbra

A's Estrellas Música em MIDI sound bite

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