terça-feira, 13 de abril de 2010



BALADA DA DESPEDIDA DO V ANO MÉDICO DE 1948-1949
Música: Manuel Raposo Marques (1902-1966)
Letra: Arquimedes da Silva Santos (1921-)
Incipit: Eram sonhos, alegrias
Origem: Coimbra
Função inicial: despedida de curso de Medicina
Supercategoria: Canção de Coimbra
Subcategoria: temas de récitas de despedida
Data: 1949

Eram sonhos, alegrias,
E ilusões à chegada!
As fitas? – verdades frias
Para os que estão de abalada!…

Sete anos de mocidade
Te servimos e, à partida,
Já semeias de saudade
A canção da despedida.

Coro

Adeus Coimbra! Adeus Alta!
Que é do teu perfil de outrora?
O último curso que amaste
Contigo se vai embora.

Vocaliza-se a quadra a solo, sem repetições. Canta-se o coro seguido, bisando o segundo dístico. Segue-se o mesmo esquema na 2.ª quadra+coro

Informação complementar:

Composição para solista masculino e coro (na estreia o coro foi feito por alunos do próprio curso), em compasso 3/8 e tom de Sol.
A Récita de Despedida de 1948-1949 do V Ano Médico foi levada à cena na noite de 6 de Abril de 1949, no Teatro Avenida, em Coimbra, e repetida no dia seguinte.
A peça da récita, intitulada Clister de Bom Humor, com três actos e sete quadros, é obra colectiva do próprio curso. O Dr. Octaviano Carmo e Sá foi o ensaiador e Arquimedes da Silva Santos, contra-regra.
A edição musical da Balada foi composta na Tipografia «Missões Fransciscanas», Braga, 1949. Nela figuram os nomes de Manuel Raposo Marques e de Arquimedes da Silva Santos como autores da música e da letra, respectivamente. O autor da melodia, Manuel Raposo Marques, era natural da Ilha de São Miguel, Açores. Frequentou a Faculdade de Direito da UC, cujo curso não chegou a concluir, e foi membro da TAUC. Desde finais da década de 1920 regeu interinamente o Orpheon e a TAUC, tendo assumido oficialmente no final da década de 1930 a regência do Orpheon, da TAUC, e a cadeira de Música da UC. Deixou reportório coral e algumas composições para récitas de quintanistas, sendo a mais conhecida Fado da Despedida do 5.º Ano Médico de 1927-1928 (Foram-se as fitas queimadas), solfa disponível em http://guitarradecoimbra.blogspot.com/2006_02_01_archive.html. A análise da partitura parece indiciar alguma indecisão vivida pelo autor intelectual da música. Com efeito, a obra abre em Sol Maior, passa por Sol menor, no início do coro vai a Sol maior e em certos trechos não se chega a perceber qual seja o tom. Em algumas notas onde pareceria lógico bemolizar, este sinal não ocorre. Daí a nossa opção na frase inicial deste texto por um simples “tom de Sol”.
O arranjo para piano que consta da partitura impressa, embora mencione como autor Raposo Marques, deve ser corrigido, pois o verdadeiro autor dessa harmonização foi o Maestro João de Oliveira Anjo. O músico militar e maestro João de Oliveira Anjo (1916-2007) era clarinetista na orquestra de seu cunhado Manuel Eliseu, formação que no final da década de 1940 participou na estreia de récitas académicas. Quem harmonizou a balada para ser ensaiada pela dita orquestra foi João Anjo, a parte de piano incluída, arranjo que Raposo Marques expressamente pediu que lhe fosse cedido para figurar como seu nome na partitura impressa em Braga.
O trabalho de transcrição foi confrontado com uma gravação particular feita por Mário Medeiros, que aprendeu o tema na infância com uma tia, cantor que bemoliza algumas notas que Raposo Marques não sinaliza na partitura.
Do ponto de vista musical, a composição de 1949 reflecte o processo de regionalização a que o Estado Novo fora confinando a Universidade de Coimbra e o conservadorismo artístico dominante entre as elites da época, entretanto patenteado nas serenatas do Emissor Regional. Vale a pena relembrar que o letrista que assina o texto para Raposo Marques musicar é o mesmo que por 1945 entrega a Fernando Lopes Graça um texto para “Marchas, danças e canções” (1946).
Quem fez os solos da balada no palco do Avenida foi Mário Luís Mendes, então grelado de Medicina e solista do Orpheon, que, em Outubro de 1947, juntamente com Florêncio de Carvalho, cantou na Serenata de Coimbra transmitida pela então Emissora Nacional. Outro cantor coadjuvante terá sido Vasco Eloy, também solista e membro da direcção do Orpheon.
Assinou a letra, a pedido de elementos do curso, o estudante de Medicina Arquimedes Santos, destacado membro do TEUC, opositor do Estado Novo, representado no Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira (veja-se a bibliografia referente a este importante médico, poeta, pedagogo e melómano apud “Bibliografia activa de Arquimedes da Silva Santos”, http://www2.cm-vfxira.pt/Page-Gen.aspx?WMCM_PaginaId=47563).
De acordo com informações prestadas em 12.04.2010, Arquimedes da Silva Santos nasceu na Póvoa de Santa Iria em 18 de Junho de 1921. Cursou Medicina em Coimbra entre 1941-1951, tendo-se destacado como membro do TEUC, da DirecçãoGeral da AAC na comissão liderada por Salgado Zenha (1945), animador do Ateneu Comercial de Coimbra, empenhado membro do movimento Neo-Realista e impulsionador da revista Vértice. Poucos meses antes da estreia da récita, em Janeiro, apoiou abertamente a candidatura presidencial de Norton de Matos no Teatro Avenida. Logo após, em 21 de Julho, foi preso, julgado e conduzido a Caxias, com ulterior passagem pelo Aljube (cf. Arquimedes da Silva Santos. Sonhando para os outros, 2007, p. 17 e ss).
A letra, alude à demolição da velha Alta sob o camartelo do Estado Novo. Conforme relembra o próprio Arquimedes da Silva Santos, o curso que se despediu em 1949 foi o último a ver o que era a antiga Acrópole que Pallas Atheneia havia erigido em Portugal e o primeiro a confrontar-se com a desoladora cratera em que a cidade fora transformada. Com “Clister” se despediram alguns notáveis da cultura portuguesa como Mário Luís Mendes (aclamado catedrático de Medicina e pai do serviço nacional de saúde conjuntamente com António Arnaut) e Bernardo Santareno.
Pelo que conseguimos apurar, não existe qualquer registo fonográfico desta composição. Não obstante, ela anda na tradição oral, havendo alguns antigos estudantes de Coimbra que a interpretam com a letra substancialmente truncada, ligeiras modificações na linha melódica e desconhecimento da data de criação.
O trabalho de reconstituição deve relevar os seguintes aspectos: a presença obrigatória de coro misto, característica presente em inúmeros temas da CC que se encontra desvalorizada nos trabalhos de estúdio e nos remakes pós-1974; o facto de estarmos perante um tema de palco, especificamente concebido para despedida de cursos, excelente pretexto para associar a guitarra de Coimbra a instrumentos como o piano, o contrabaixo, o violino, a flauta ou o clarinete.

Transcrição: Octávio Sérgio (2010)
Pesquisa e texto: José Anjos de Carvalho e António M. Nunes

Agradecimentos: ao Maestro João Anjo (falecido em 2007), à equipa do Museu do Neo-Realismo pela informação disponibilizada e pela oferta do catálogo Arquimedes da Silva Santos. Sonhando para os outros. Vila Franca de Xira, Edição da CMVFX/MNR, 2007 (que referencia a balada), e ao Dr. Arquimedes da Silva Santos

Balada de 1948/49 de Raposo Marques em MIDI sound bite

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